O CÃO NÃO É UM LOBO!

O CÃO NÃO É UM LOBO!
15/jan/2018
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O cão moderno mudou muito em relação ao lobo

(Traduzido e adaptado de matéria de Ryan Yamka no site da Petfood Industry, de julho de 2017)

Uma visita aos sites de venda de alimentos para animais de companhia ou mesmo às lojas especializadas em alimentos para cães e gatos, pode deixar os donos de cães curiosos.  Hoje há uma tendência, do marketing dos alimentos para cães, de chamar a atenção para os ancestrais do cão – os lobos, no que diz respeito à alimentação, ou seja, alimentos biologicamente apropriados, ricos em carne e proteína, com baixo teor de carboidratos, ressaltando o lado selvagem de seu cão.

 

Muitos destes conceitos estão fundamentados na crença de que o cão não é diferente de um lobo e deveria ser alimentado como tal. Muitas citações na internet têm boas histórias para dar suporte a esta crendice. Todavia, é provável que a maioria dos donos de cães nunca tenha questionado se existe fundamentação científica para dar suporte há tal crendice. Isto nos leva a pergunta que muitos proprietários de cães deveriam fazer: Meu cão é um lobo e deve ser alimentado como tal?

 

A resposta é curta e grossa: não. Embora os cães sejam descendentes de lobos, a domesticação pelo homem levou os cães a evoluírem de uma alimentação carnívora, rica em proteína e gordura, para uma alimentação onívora, rica em carboidratos. Estudo publicado na revista Nature, em 2013, de autoria Axelsson e outros, mostrou que a seqüência do genoma de cães e lobos tem várias alterações genéticas que ocorreram durante a domesticação. Das alterações identificadas no estudo, eles encontraram diferenças em genes ligados a funções cerebrais associadas ao comportamento do cão como um animal doméstico. Também encontraram diferenças genéticas no processo de digestão do amido, sendo a capacidade de digerir amido maior no cão em relação ao lobo. Esta variação genética está mais que comprovada, na prática, por ensaios de digestibilidade de alimentos ricos em amido, conduzidos com cães nos últimos anos. Tais estudos de digestibilidade, usando os principais alimentos ricos em amido empregados na formulação de alimentos secos para cães e gatos, como arroz, milho, cevada, batata, sorgo, trigo, mandioca, lentilhas e ervilha, mostraram que a digestibilidade do amido, nestes alimentos, foi sempre maior a 98%.

 

Assim, dada a popularidade da internet e a facilidade que as pessoas têm para publicar as suas opiniões, os donos de animais de estimação deveriam sempre questionar as informações que lhe são apresentadas e procurar o embasamento científico por trás de cada nova informação. Na área da nutrição e alimentação animal, por exemplo, os estudos de digestibilidade (ou seja, quanto do alimento ingerido o animal absorve) são relativamente fáceis de serem conduzidos e fornecem importantes informações da capacidade do animal de utilizar tal alimento como fonte de energia e nutrientes para o seu metabolismo. Cabe às empresas que produzem alimentos e aos médicos veterinários a importante função de, com ética e profissionalismo, orientar os proprietários de animais de companhia sobre a melhor forma de alimentar seus animais para que os mesmos tenham uma vida longa e saudável.

 

 

Traduzido e adaptado por Geraldo L. Colnago

Mestre em Zootecnia/Nutrição de Monogástricos pela UF de Viçosa em 1979.
PhD em Nutrição de aves pela Universidade da Geórgia, em 1983.
Pós-Doutorado em Nutrição de Animais de Companhia pela Universidade de Illinois, em 1985.
Professor visitante da Universidade da Geórgia, 1990/1991.
Professor da Faculdade de Veterinária da UF Fluminense de 1977 a 2011.
Consultor para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da FVO Alimentos de 2002 até o presente.